sábado, 2 de julho de 2011

Goethe e Os sofrimentos do jovem Werther: o amor como algo já presente dentro de nós.


            Um homem que ama tão profundamente uma mulher que por não suportar mais vê-la noiva de outro e saber que nunca poderá tê-la acaba se matando. Essa é a história de Werther, uma história que já é impactante quando apenas é contada a sua trama, mas como esta se encontra escrita a faz ter um peso ainda maior, pois a cada página do livro o autor descreve o sentimento do amor, um sentimento intenso e que vem de dentro dele.
            Werther foi um personagem criado por Goethe para representar o que o mesmo sentia por uma jovem também chamada Charlotte que se encontrava noiva de Johann Kestner, que na trama Goethe substituirá seu nome por Albert. A cada página o sentimento que possui pela jovem é expressado, mas Goethe não teve o mesmo fim do seu personagem de seu amor levar a morte, mas como o mesmo depois justificou foi necessária a morte do jovem Werther a fim de que, ele mesmo se salvasse, nas suas palavras depois ele justifica da seguinte forma: "matei o herói para me salvar”.
            Mas por que esse amor foi algo tão forte que fez com que o escritor tivesse que matar seu personagem para se salvar? Será que esse sentimento é uma coisa tão íntima e profunda, que se encontra tão enraizado dentro de nós e por isso é algo tão difícil de ser destruído? Bem sabemos que quando alguém ama, ou conceitua como sendo amor o que sente, isto não se apaga de uma vez por toda, às vezes essa ação nunca acontece, ficando dentro de nós como se uma doença que não tem cura.
            Para o escritor e também para todos os escritores da época em que o livro foi escrito, que conhecemos com Sturm and Drang (ou pré-romantismo), percebemos essa concepção racional sobre os sentimentos, mostrando como se estes, assim como o amor já estão em nós desde que nascemos, como uma necessidade intrínseca do homem.
            Mas aonde podemos encontrar essas afirmações? Na obra inteira, ou melhor, a partir do momento em que o jovem Werther conhece Charlotte até o momento derradeiro de sua vida, pois em todos os momentos seu ser é tomado por esse sentimento, assim como o mesmo diz-se encantado por tão bela criatura e que não consegue mais deixar de vê-la e que se tal tarefa fosse necessária o mataria.

“Todas as minhas preces dirigem-se a ela; na minha imaginação não há outra figura senão a dela, e tudo que me cerca somente tem sentido quando relacionado a ela. E isso me proporciona algumas horas de felicidade – até o momento em que novamente preciso separar-me dela! Ah, Wilhelm!, quantas coisas o meu coração desejaria fazer! Depois de estar junto dela duas ou três horas, deliciando-me com a sua presença, suas maneiras, a expressão celestial de suas palavras, e todos os meus sentidos pouco a pouco se tornam tensos, de repente uma sombra turva meus olhos, mal consigo ouvir, sinto-me sufocado, como se estivesse sendo estrangulado por um assassino, meu coração bate estouvadamente, procurando acalmar os meus sentidos atormentados, mas conseguindo apenas aumentar a perturbação – Wilhelm, muitas vezes nem sei se ainda estou neste mundo!” (GOETHE, 2000, p. 69).

            No trecho acima citado, vemos como o jovem Werther sentia-se em relação ao seu amor pela Srta. Charlotte, mas nesse momento este já está sofrendo em saber que ela não pode ser dele, mesmo que em seu íntimo ele acredite que ela sente o mesmo por ele. Eis um problema do jovem Werther, este sempre acreditou que todas as pessoas pudessem ser tomadas do mesmo sentimento que ele, pois bem o descreve e percebemos novamente ele acreditando ser algo interno quando em uma das cartas a Wilhelm o mesmo assim lhe escreve: “Cabe-me alguma culpa, se em seu pobre coração cresceu uma paixão” (GOETHE, 2000, p. 07), entretanto este não esta se referindo a Charlotte, mas a uma moça que havia se apaixonado por ele e que não havia correspondido.
            Segundo Goethe, quando o ser é tomado pelo amor, ele torna-se necessário neste mundo e é somente este sentimento que faz o homem tornar-se assim. Para ele, não existe algo mais sublime, mais verdadeiro e natural do homem do que o amor e sem este sentimento, a própria vida não possui sentido, pois é a finalidade do se humano, amar, independente de ser amado.
            Entretanto, existem escritores que não concordam com Goethe, dizendo que muitas vezes amar alguém é melhor do que ser amado, pois para estes escritores, tal como o francês Charles Baudelaire, em um relacionamento sempre haverá um que sofrerá e outro que terá apenas o bem, sendo que o que sofre é o que ama.

“[...] o amor é muito parecido com uma tortura ou uma operação cirúrgica. Mas esta idéia pode ser desenvolvida da mais amarga. Mesmo que dois amantes estejam apaixonadíssimos e repletos de desejos recíprocos, um deles se mostrará sempre mais calmo ou menos possuído do que o outro. Um é o operador ou o carrasco; o outro o sujeito, a vítima.” (BAUDELAIRE, 2009, p. 17).

            O que ama é a vítima, o paciente; o que é amado, o carrasco, o cirurgião e, com essa idéia o pobre jovem Werther nada mais é do que uma vítima, pois ele ama intensamente e acredita ser amado.
Que Charlotte o ame ou tenha um apreço enorme por ele, não há a menor, pois quando o mesmo vai embora, tentando fugir do que sente pela moça, esta o escreve, demonstrando se importar com ele, mas o amor que ela sente por ele é diferente do que o que ele sente por ela, demonstrando-nos desta maneira que o amor mesmo que seja algo natural de cada um, este possui níveis, e que estes níveis variam de pessoa para pessoa. Werther não se conforma e nos coloca novamente a idéia do amor como algo único do  homem e ainda nos mostra a idéia que quando se ama uma pessoa, esta pessoa deve ser amada apenas por um, e não por dois, ou mais, praguejando diversas vezes contra Alberto, achando indigno de que ele esteja com ela.

“Às vezes não compreendo como outro possa amá-la, tenha o direito de amá-la, quando eu, somente eu a amo, com tanta ternura, tão profundamente, não pensando em outra coisa, querendo apenas esse amor, e não possuindo nada além dela.” (GOETHE, 2000, p. 102)

            Quando o mesmo acha-se indignado com a idéia de outro homem amar sua querida Charlotte, podemos perceber um grande traço das idéias de Platão em seu diálogo O Banquete, tal como se o mesmo afirmasse que ela era sua alma gêmea e que ele e apenas ele poderia a completar, e ela como sendo a única entre todas as mulheres que pudesse ser dele. Aquela que estaria lhe completando, algo de seu corpo, se sua alma e de sua razão, como se isto tivesse sido já predestinado e que, se não viesse a acontecer, as coisas não estariam certas.
            Destarte, ela não ficou com ele, mas casou-se com Alberto, que já era seu noivo, mostrando que o amor que sentia por Werther não era o mesmo que ele sentia por ela e que ele a seu ver, não era a parte que lhe completava, mas apenas alguém que estava na sua vida, tal como todos os outros. Werther não conseguiu aceitar isso, o que fez com que o mesmo se matasse em amor do amor que sentia por Charlotte, não porque ela o pediu isso, mas porque ele não suportou a idéia de que aquilo que o fazia necessário neste mundo fosse a mesma coisa que o faria perder o sentido dessa vida e que aquilo que estava dentro dele desde se nascimento e se mostrou a ele quando conheceu sua amada Charlotte, se tornou algo que fez com o que mesmo entregasse a todo o sofrimento possível pelo fato de saber que nunca mais a teria.
            O amor para Goethe, e que foi expresso por seu personagem é algo totalmente racional, pois ele cresce de algo que possuímos dentro de nós, dentro de nosso coração, tal como ele se refere e que, a momento que nos encontramos com ele, nada mais é possível de fazê-lo calar, nem uma viagem para longe da pessoa amada, nem o tempo, nem as pessoas, mas que quando se espalha não pode ser mais arrancado, pois possui raízes muito profundas, arraigadas dentro de nós desde o momento desde que nascemos.
            Nascemos com o amor e este pode ser descoberto durante a nossa vida, mesmo que alguns nunca o encontrem, e morremos com ele, pois ele é algo que não pode ser tirado de dentro de nós, tal como retiramos uma maçã podre de uma cesta de maçãs para que as outras não estraguem, mas o amor é tal como uma rosa solitária em um jardim que não produz mais dentro de nós, ela não fica lá sem ser notada, assim como seu perfume não se concentra apenas no espaço onde ela se encontra, mas ele se espalha por todos os cantos, é levado pelo ar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

BAUDELAIRE, C., Meu coração desnudado – Edição bilíngue. Trad. T. Tadeu. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2009.
 
GOETHE, W. J., Os sofrimentos do jovem Werther. Trad. M. Fleischer – 2ª Ed. São Paulo, Martins Fontes, 2000.


           


        

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