segunda-feira, 25 de abril de 2011

Abreviatura do amor

No decorrer do nosso dia a dia existem diversos afazeres que necessitamos cumprir, são coisas importantes, outras nem tanto, mas sempre vivemos atarefados, independente do que estivermos fazendo.
        Nessas tarefas, muitas coisas acabam por serem esquecidas, coisas de tão grande importância, mas que não percebemos. pois tão curto é o nosso tempo de descanso, que não pensamos muito no que nos falta, principalmente no que é de valor imaterial, pois o material, vivendo no mundo capitalista que estamos, até é percebido.
         Mas o imaterial, aquilo que é do espírito, dos sentimentos, passa despercebido, pois aprendemos a não dar mais tanto valor a isto. E isto faz com que aquilo que não se acha tempo para ter, para sentir, para viver tenha que sobreviver e destacar-se no espaço que se encaixa, mesmo que seja um lugar tão pequeno, que quase pareça não existir.
Ele tem que esforçar-se ao máximo a conquistar o seu lugar, a mostrar as pessoas tão atarefadas como estão, como esses bens imateriais possuem um espaço e que muitas vezes estas se enganam pensando que não necessitam deles. Outra coisa que acontecem quando deixam tudo antes desses bens é não se importar em estragá-los das pessoas que ainda o carregam consigo, o que faz com que pisem, humilhem e traiam aqueles que ainda os tinham, a ponto que, geralmente, estas pessoas machucadas os abandonem também. E dessa forma o amor também vai se perdendo no meio de tudo isso.
São cicatrizes, falta de tempo, indiferença. As pessoas tornam-se apáticas e começam a fazer com que este sentimento, tal como outros bons sentimentos, se percam, se anulem, desistam de garantir o seu lugar. E tudo isso porque as coisas que realmente deveriam importar, não importam para as pessoas, tudo parece supérfluo e sem valor, desnecessário, é como se os sentimentos impedissem as pessoas de serem livres.
Elas fogem, dizem que não acreditam nele, que ele é invenção das nossas cabeças, ou apenas uma convenção social e que não iriam viver com esse sentimento, devido a ele ser algo tão imbecil.
Imbecil? Pois digo o que é imbecil, imbecil é ter atitudes como a de praguejar contra ele só porque em algum momento não se teve uma experiência agradável, só porque prefere se fazer de “o cara massa” ou a “garota de personalidade”, tirando sarro de quem gosta de demonstrar o que sente para as outras. Isso é ser imbecil! É ser imbecil, pois no fundo eles sabem o que acontece, ficam sozinhos, dizem ser felizes, mas algo sempre lhes faltará e eles não saberão o que é, ou preferirão acreditar nisso do que saberem que eles foram os causadores dessa infelicidade que possuem, pois a felicidade não é ser só, mas ter alguém a quem poder partilhar as coisas boas e uma pessoa que lhe possa ouvir quando você necessite, e que mesmo com mil e uma escolhas, escolha você e só você, porque você é especial.
O amor tem que se tornar o super herói da historia, se diminuir, abreviar-se, mas nunca sumir. Permanecer forte e inteiro, mesmo que as circunstancias tentem lhe forçar do contrário. Ele tem que mostrar que sem ele tudo é sem cor, sem confiança, sem sinceridade, sem respeito a ninguém.
Quando ele consegue atuar e se manter firme, todos os outros sentimentos bons são consequência, assim como quando se diz que ama alguém, isso significa respeitá-la e confiar nela, mesmo que os outros digam que é louco fazer isso, pois ninguém merece tanto. 
Amar alguém ou algo, quem sabe até um cachorro, é dar a devida atenção que todo mundo merece ter. É ver mais qualidades, mesmo que essa pessoa possua mais defeitos, é aceitá-los, cada um sem tentar mudar seu jeito, é muitas vezes fazer tudo que estiver ao nosso alcance, mesmo que não recebamos da mesma forma.
Quando deixamos esse amor entrar, mesmo que abreviado dentro de nós, lhe damos oportunidade de expandir-se, tornar-se forte, preencher aquilo que nos faltava, mesmo que não percebêssemos, é dar uma oportunidade a mais ao um mundo que nem sempre é justo, é parar de pensar no um, mas no dois, talvez até mais, mas pensar em cada ser como único e especial demais para que pesemos se vale a pena perdê-lo por atitudes bobas e que antes eram corriqueiras.
Dar esse espaço a ele, significa não deixá-lo em segundo ou terceiro plano, mas em primeiro e daí em diante agirmos tendo ele como nosso guia.

P.s: Àquele que me mostrou o espaço que tinha dentro de mim e que eu não percebia. O que fez com este sentimento não fosse mais abreviado em minha vida, mas a cada dia expandido.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Descartes e o argumento Cogito, ergo sum

            Não há a mínima dúvida que qualquer um que estude em algum momento de sua vida filosofia, sendo ela de um modo mais intenso ou até mesmo de um modo mais superficial, que se depare em algum momento com a tese racionalista de Descartes, Cogito,ergo sum, ou seja, penso logo existo. Entretanto o que parece uma incógnita e motivo de diversas discussões é a idéia de que quando Descartes a desenvolvia, pensava em sua idéia como um argumento valido, ou seja, dentro das normas da lógica.
            Não há duvida de que se pensamos, logo existimos, entretanto, se essa frase nos fosse dada ao contrario, poderíamos afirmar que ela continua sendo verdadeira, ou até mesmo podemos usá-la com os outros e ter a certeza de que ela continua sendo uma verdade, ou é algo subjetivo, tomando validade apenas quando empregamos a nós mesmos e não aos outros?
Primeiramente tomemos como objeto de estudo a idéia da frase “Cogito, ergo sum”, ou seja, ao invés de entendermos a frase em penso, logo existo, a entendermos como a idéia de que existo, logo penso. Nesse caso, torna-se totalmente válido em algumas questões, entretanto se tomarmos tudo que existe como algo pensante, logo imaginaríamos que uma pedra ou um pedaço de madeira possa pensar algo, o que parece ser algo improvável, algo duvidoso. Portanto, para que o “Cogito, ergo sum” ser um argumento lógico valido, esse não pode ser passível de dúvida, fazendo-nos perceber a idéia do de alterarmos a ordem da frase, faz com que a mesma perca a sua veracidade.
Parece-nos completamente verídico a idéia de que se pensamos, logo existimos, pois até mesmo para o desenvolvimento do pensamento dessa frase percebemos que ambos necessitam existir e que parece haver uma conexão entre ambos, destarte, isso é uma idéia particular, pois parte de nó para nós mesmos, sem que haja qualquer universalidade para tal tese. Entretanto, se formos usar esse mesmo argumento de uma forma universal, perceberemos claramente que o mesmo torna-se inválido, pois se acreditarmos que tudo que pensa existe, logo estaríamos afirmando que a pedra, o cachorro , e outros seres que aparecem a nós, devem pensar, tornando-se seres racionais e naoc irracionais como acreditamos.
Portanto, cabe concluir que o argumento Cogito, ergo sum não é um argumento valido, pois ao analisarmos mais profundamente, percebemos que o mesmo contradiz-se inúmeras vezes, mostrando-nos que mesmo que ele de todos os modos parece ser, na realidade ele não é, parecendo mais ser uma outra dúvida cartesiana, mas que foi de tal modo defendida que ultrapassou-se e devido as condições em que foi apresentada, acaba por entender-se como sendo a própria verdade.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Medéia: A natureza de nossas ações

Todo mundo conhece a história: mulher que sai de sua cidade fugindo com o seu amado Jasão, que trai sua família e sua tradição por causa de seu amor, que trama as mais artimanhas possíveis tomada pela paixão, mata grandes homens com os seus feitiços, é traída, lamenta, sofre por ter deixado tudo para trás e decide se vingar. Primeiro mata a futura esposa de seu marido, a princesa Glaucia e consequentemente o rei Creonte. Ainda triste e amargurada, trama a morte de seus dois filhos e a sua fuga na carruagem do deus titã Sol, seu avô. Mata os filhos, foge e leva seus corpos junto a fim de Jasão não possuir nem o corpo dos mesmos para enterrar. Jasão sofre, vaga o resto da vida e lamenta-se a morte dos garotos e amaldiçoa a sua mulher. Sem lar, sem ninguém, Jasão padece a andar pelo “mundo”.
            Por muitos considerada louca, por outras mártir, essa personagem da tragédia grega já ganhou muitos adjetivos durante a historia, entretanto quem é ela? Medeia pode ser considerada mais humana que qualquer outro que faça grandes coisas em sua vida. Mas como alguém que mata seus próprios filhos pode ser comparada a outras pessoas que consideramos nossos “heróis”? antes de continuarmos nossa análise faz-se necessário uma analogia com a tragédia Édipo Rei e como Édipo assim como Medéia pode ser considerado mais humano que qualquer um, pois ele percebe o seu erro e ele mesmo se pune pelo que fez,  o que ninguém faria hoje em dia não é?
            Nossa personagem também agiu da melhor maneira que achou e ela também fez o que qualquer outra pessoa deveria ter feito no seu lugar: matar os seus filhos. Mas por que ela agiu corretamente?
            Medeia agiu da melhor maneira pois percebeu que se seus filhos permanecessem vivos seu destino seria cruel, destino este imposto por Jasão, onde eles vagariam como estrangeiros com a mãe pelo mundo ou na melhor das hipóteses continuariam com Jasão, mas jamais seriam tratados como filhos realmente merecem ser tratados por seu pai e nem ao mesmo teriam uma mãe a confortá-los.
            Muitos apontam Medéia como uma pessoa desequilibrada ao realizar tais ações, pois num acesso de ira acaba por achar que a morte de seus filho seria a melhor opção. Que a morte de seu filho poderia ser a melhor opção não se pode negar, e eu até concordo que tenha sido e que qualquer um faria o mesmo, mas suas outras ações poderiam não ter sido executadas.
            Tomada por um amor doentio, Medéia acaba por ficar completamente fora de si, o que faz com que muitos concordem com a idéia dela ter ficado louca, e faz com que completamente a função da tragédia, que é a Kartasis, acabe por ser algo completamente impactante e que nos faça não apenas refletir sobre quem esta em primeiro lugar em nossa vida, mas também sobre a natureza de nossas ações.
            Que ações tomamos em nossa vida que são dignas realmente de serem chamadas de humanas? Será que não tomamos quase todas as nossas decisões pelo impulso? Ao ato de agir pelo impulso entendemos no grego a palavra hybris,que  é um estar tomado por um desequilíbrio, possessão, ira, estar fora de si, assim como a personagem da tragédia, que mesmo que em muitas coisas tenha agido de forma magnífica, acaba por perder-se do humano ao modo de agir de acordo com o seu modo dionisíaco, ou seja, de acorda com o instinto e não a razão.
            Se analisarmos mais a fundo, vemos que Medéia não precisava ter matado mais que seus filhos para que eles não sofressem, mas tomada por um ódio que lhe cegava tudo, devido a Jasão ter-lhe abandonado e a trocado pela princesa Glaucia, a fez cair em um estado de desespero, o que contribuiu para ações desnecessárias, tais como a morte de Glaucia e do rei Creonte. Mas quem não age dessa forma quando algo lhes deixa incomodado? Todos quando tomados pela ira acabam por se portar de um modo muito diferente do normal.
            Todas as nossas ações são regidas pela nossa razão ou pelo nosso instinto e a tragédia analisada tenta nos fazer perceber quais as conseqüências de agirmos de acordo com a ação errada, que é a que é desligada da razão,visando apenas o lado dionisíaco de nossas ações.mostrando como perdemos o nosso lado mais humano que é o de agir pela razão, compreendendo cada escolha que temos e assim agir do modo correto, mas que ao agirmos de modo diferente acabamos por realizar coisas que não deveriam nem ao menos serem cogitadas por nós.
            A função de purificação dessa tragédia é também essa, mostrar como o homem acaba por agir erroneamente quando deixa-se levar pelos sentimentos ao invés de agir de acordo com a razão e mesmo que em muito ele tenha feito ações dignas de admiração, quando deixa-se ser tomado pelo dionisíaco acaba por perder-se de sua humanidade, e agindo apenas como mais um animal que age de acordo com o instinto.


Prometeu Acorrentado: A força de defender o que se pensa

 Prometeu, deus titã da era antes dos deuses olímpicos é o deus que mais ajudou Zeus em sua ascensão ao trono e a derrotar o deus titã, Cronos, seu irmão e aprisioná-lo para sempre. Após Zeus ter assumido o lugar de deus do Olimpo, ele planeja destruir toda a humanidade, mas Prometeu o aconselha a não fazer isso, mas Zeus já não o ouve, ele esquece-se de tudo o que o deus titã fez por ele e não lhe dá ouvidos. Inconformado com o fim da humanidade Prometeu rouba o fogo sagrado (conhecimento) e entrega aos homens dando assim a eles o conhecimento sobre a matemática, as ciências, as letras e a como eles podem lidar com a natureza. Completamente fora de si, Zeus ira-se contra Prometeu e o castiga o acorrentando em um local onde nunca mais ele possa se libertar.
Prometeu então é preso, acorrentado no Cáucaso por Hefesto acompanhados de Crato e Bia (poder e violência, servos de Zeus), devido ao deus ferreiro possuir um grande apreço por Prometeu, os dois acompanhantes tem o papel de o censurarem toda vez que o mesmo ponderar em prender o deus titã. Alem de estar preso Prometeu recebe um outro castigo terrível, o de um pássaro devorar seu fígado todos os dias e a noite o órgão se regenerar para que possa ser devorado novamente ao amanhecer. Triste e preso, Prometeu se queixa para as Oceânides da ingratidão do deus olímpico e da ingratidão dos homens por tudo que ele fez por eles, que dando o conhecimento aos homens e fazendo o que achara certo acabou por receber um castigo terrível.
Porém Prometeu não se rebaixa a Zeus, mesmo sendo punido pelos seus atos e afirma nunca arrepender-se do que fez e nunca humilhar-se a Zeus pedindo seu perdão, pois ele sabia que o que fez era o certo. Prometeu também afirma que Zeus não durará para sempre e que o destino de Zeus já esta premeditado, e que ele esperará o dia em que isto acontecerá e então será libertado.
Em sua terrível estadia no Cáucaso, Prometeu encontra-se com Io, outra que também sofre terríveis coisas devido ao comportamento excêntrico dos deuses, pois devido ao ciúme de Hera, Io deverá pelo resto da vida fugir de uma espécie de besouro que vive a atormentá-la. Prometeu pede a Io que siga até o rio Nilo, pois ali ela dará a luz a um filho do qual nas próximas gerações terá como descendente Herácles, que o livrará de seus tormentos.
Mesmo sofrendo, Prometeu continua a falar de suas previsões e que Zeus ainda cairá e ele será liberto. Instigado Zeus pede a Hermes que faça com que Hermes fale sobre essa sua profecia, entretanto Prometeu nega isso, mesmo sendo ameaçado de martírios piores do que os que já recebe, até então que Hermes desiste e Zeus então despeja sua ira no deus titã mais uma vez.
Mas o que podemos tirar dessa tragédia para que possamos ser tocados por ela? Podemos obter várias interpretações, mas todas as que teremos, mesmo que falem de deuses, serão todas acerca de sentimentos e ações humanas e como Prometeu, tal como os outros personagens trágicos, os tem de forma sublime.
Vemos em primeiro momento a traição que ocorre entre Prometeu e Zeus, onde um trai o outro, um pelo roubo, outro pela ingratidão, mas esse não é a ação mais interessante dessa história. Temos a ação humana do compadecimento pela espécie humana, em que Prometeu  rouba o conhecimento e dá aos homens, ao ponto de que Zeus ao ver os homens possuindo tal característica, decida desistir da idéia de aniquilá-los. O deus titã que nada tinha a ganhar com os homens e em momento estes lhe faziam algo de útil, teme seus futuros, pensa no inferior a ele e não deseja um destino cruel aos mesmos.
Por não desejar seu fim, Prometeu defende seu ideal que os homens não sejam extintos e paga por seu erro, sem castigar ninguém por isso. Entretanto, Prometeu lamenta-se por tanto ter feito e nada recebido em troca, mas espera o dia em que será livre outra vez. Prometeu tem suas idéias, tem suas convicções e mesmo que saiba que as abandoná-las pode ajudar a diminuir seu sofrimento, ele continua firme no que acredita, sem jamais deixar-se desviar do que acredita ser o certo. Ele sabe que no fim as coisas estarão certas e aguarda este final.
Eis o ponto chave dessa tragédia, ao meu ver, quantas pessoas suportam castigos para defender suas idéias? Quantas pessoas ainda possuem idéias diferentes sem o medo de serem julgadas malucas por pensarem diferente? De não acharem mais um lugar na sociedade que todos tanto almejam após exporem a sua opinião? Ninguém é humano o suficiente para tais ações, cada um prefere viver igual porque o diferente sempre é motivo de chacota, de piadas, de preconceito. E não precisamos ir longe para percebermos isto, basta pegarmos o exemplo que Platão deu em sua alegoria da caverna, onde aquele que pensou diferente foi morto por aqueles que não acreditavam no que ele dizia.
Prometeu foi humano ao assumir o que pensava, ao passar pelos sofrimentos que teve e mesmo assim defender o que ele achava certo, e eis o que também devemos fazer, sermos humanos o suficiente para defender o que acreditamos, mesmo que isto nos custe a própria liberdade, tal como foi com o deus titã.